Fotos de capa

Foto do título: Leões carinhosos do Addo Elephant Park

Foto do fundo: Piso do Shopping Victoria Wharf no Walterfront de Cape Town


sábado, 18 de maio de 2013

Cabo da Boa Esperança e Boulders Beach - passeio histórico na Cidade do Cabo

Estudamos, quase todos, os grandes feitos dos navegadores portugueses e suas muitas frustradas tentativas de se chegar à Índia, como o coiote lutando para por as patas no papa-léguas. Uma busca como esta pode deixar o viajante alienado do belíssimo mundo que se descortina ao seu redor. Ao domar o "Cabo das Tormentas", talvez devessem ficar mais um tempinho por ali e apreciar o visual.  

E é mais pelo visual e por bichinhos fofos, que vale a pena fazer o passeio pelo Cabo da Boa Esperança. Normalmente dura um turno e pode ser combinado com Groot Constantia ou com um Camps Bay (ambas no caminho). Também um ótimo passeio para se fazer com carro alugado (a estrada, embora estreita e bem movimentada, me pareceu segura)

O transfer iniciou em Camps Bay, logo após a agência nos buscar no hotel. Ponto negativo: atraso enorme para nos pegar e ainda maior pela espera de outros passageiros. Uma excelente opção seria pedir que o transfer nos pegasse em Camps Bay, pois assim poderíamos aproveitar o clima de praia e descontração, enquanto a agência buscava os outros passageiros.

Com a visão dos doze apóstolos, nome deste recorte de arenito que forma as 12 curvas de montanha, está o mar de Camps Bay (qualquer semelhança com o Rio de Janeiro é mera coincidência - a propósito, a água é ainda mais gelada). 

Paramos em uma espécie de estacionamento para esperar os passageiros atrasados em um dos bancos posicionados em frente à praia. 

O caminho é todo lindíssimo, com muita montanha e mar, despenhadeiros de tirar o fôlego. 

Margeando a costa, com direito a adentrar em uma ponte construída no meio da montanha, está a chamada Chapman's Peak Drive, uma estrada que levou sete anos para ser construída. 


Praias que parecem desconhecer a presença humana.

O Cabo da Boa Esperança faz parte do Parque Nacional da Table Mountain  e o ingresso para compra individual (quem vai por conta própria) custa 90rands (R$21,00). Ao chegar no parque encontramos logo um babuíno, espécie de macaco muito comum na região e que iríamos encontrar com frequência durante a viagem. 
São muito agressivos e fomos orientados a fechar as janelas do carro, pois eles podem pular dentro do veículo para tentar pegar comida. Este parecia bem pacato, descansando em cima de um dos veículos estacionados no Parque.

O local de maior interesse do parque, o Cape Point,  possui dois restaurantes, um parecido com uma loja de conveniência, onde comemos uma pizza bem saborosa, e outro elegante chamado Two Oceans de frutos do mar.

Há duas formas de se chegar no ponto mais ao sul do continente africano: de funicular (cerca de R$8,00) ou subindo a pé uma trilha ao lado, de dificuldade média.

A subida pela trilha compensa pela bela vegetação e mirante deslumbrante

Ao sair de Cape Point, a próxima parada é no Cabo da Boa Esperança, onde reside uma quantidade ainda maior de babuínos, avestruzes e diversos tipos de aves.

Coceira ao ar livre


Basicamente o que encontramos no Cabo da Boa Esperança: um marco em uma praia repleta de rochas.

O retorno rende mais paisagens de estalar os olhos - Monumento a Bartolomeu Dias em Dias Beach.

E o último encontro do dia: Boulders Beach, a praia dos pinguins.


Pode-se acessar pelo parque de proteção (R$10,00) ou à direita, por este caminho de madeira (grátis) margeando a praia.

E olha eles ali se refastelando na água gelada. Muitas pessoas entram pelo parque porque se pode nadar com os pinguins, pelo menos os que tem pele de jacaré ;-)

O pinguim é um bicho-família, cuida de seus filhotes e de sua companheira, a quem é fiel durante toda a vida. 

E depois de conhecer estes fofuchos, agradeci às forças da natureza, por agir para que os navegantes portugueses não firmassem pouso por aqui, o que, pelo relato de Álvaro Velho, fez um bem enorme à reprodução destes bichinhos. 

"E neste Ilhéu há umas aves, que são tamanhas como patos e não voam, porque não tem penas nas asas, e chamam-lhes fortilicaios, e matamos delas quanto quisemos; as quais aves zurram como asnos". Álvaro Velho, navegador português narrando a primeira viagem de Vasco da Gama in Alberto da Costa e Silva, Imagens da África.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Victoria and Alfred WaterFront - um passeio para o dia inteiro na Cidade do Cabo

Quem já andou pelo blog percebe que compras não é muito meu forte. Até gosto de comprar, como a grande maioria das pessoas, mas não viajo para isso. Nesta filosofia de "viagem de experiência" e não viagem de "adquiriência" :-) dificilmente passo muito tempo em shoppings, mas o Victoria and Alfred WalterFront da Cidade do Cabo é diferente. Vale a pena passar um dia inteiro lá!

Primeiro porque não é só um shoppping, mas um grande  e interessante centro de diversão. Logo na chegada se tem o Museu Robben Island, com as saídas do ferry para a Ilha de Robben, onde Nelson Mandela ficou encarcerado por 18 anos, do total de 27. 
Não conseguimos fazer o passeio pelas condições climáticas e o instável vento, mas podemos confirmar em fotos o que Richard Stengel sentiu: "Quando entrei pela primeira vez na antiga cela de Mandela na Ilha Robben, assustei-me. Não havia espaço para um ser humano, era muito menor que o tamanho de Mandela. Ele não podia se esticar quando estava deitado. Era óbvio que a prisão o tinha moldado, literal e figurativamente: não havia espaço para movimento insignificante ou emoção, tudo tinha que ser aparado, tudo tinha que ser ordenado." Os caminhos de Mandela, Richard Stengel.
Realmente uma pena não ter podido conhecer a Ilha e mais um motivo para voltar. 

O WalterFront, como é conhecido, me pareceu bastante democrático. Várias famílias tipicamente Sul Africanas com seus lanches trazidos de casa, junto a turistas bronzeados e moços em carros antigos conversíveis. Tudo muito charmoso, muito tranquilo e, ao mesmo tempo, animado. Encontramos este grupo logo passar a ponte onde há um elefante em tamanho natural. Deu vontade de parar para assistir a todas as performances, mas ainda tínhamos muito para ver.  

O local tem parque de diversões, aquário, vários restaurantes e bares interessantes, passeios de barco, exposições ao ar livre e até aula de ginástica no anfiteatro que fica no centro do Walterfront. 

Após a aula de ginástica a pessoa pode se acalmar ouvindo a Filarmônica da Cidade do Cabo. No site tem toda a programação.

Optamos por conhecer a gastronomia do local, elegendo o Beltazar, considerado a melhor carne da cidade, para uma iniciação. Provamos duas taças de Pinotage e Shiraz, que vinham com etiquetas, muito bonitinhas. 
Para começar uma entrada de cortesia da casa (já gostei). Molho bem picante e pão bem macio.

Para o almoço um combinado com as três carnes de caça mais famosas da África do Sul, o Game Kebab, com Springbok, Kudu e Impala.

O prato estava saboroso, mas depois do filet do nosso amigo, vimos que ficamos no chinelo.


A conta não foi das mais baratas, mas com esta vista... A vida vale a pena.


A parte interna do restaurante é mais intimista, mas muito confortável e outra vista bem interessante:

Quem sabe depois deste banquete fazer a digestão entre Gucci, Louis Vuitton, Burberry, Chopard... O Walterfront tem para todos os gostos e quase todos os bolsos. 


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma manhã no centro da Cidade do Cabo - história e cultura

Os viajantes do Seculo XIX eram preconceituosos, prepotentes e muitas vezes intelectualmente arrogantes, mas sabiam descrever, ainda de em alguns casos de modo desajeitado, o que viam, fosse grande ou pequeno. (...) Os detratores dos africanos e os que lhes dedicavam palavras amigas tinham em comum o fascínio pela Africa. Desde os autores quinhentistas, via-se o continente, não resisto ao paradoxo, ensolarado de mistério. 
Alberto da Costa e Silva, Imagens da África.

Com esta expectativa, em busca do mistério do "nosso" continente originário, cheguei à África do Sul. Visitar este país com a tentativa de liberação de todos os preconceitos em relação à pobreza, desigualdade social, ao escândalo de um regime segregador que chegou bem próximo do Seculo XXI, de peito aberto, ao máximo que se pode tentar.

A impressão da Cidade do Cabo foi das melhores possíveis. Em verdade, poucas vezes a chegada se dá de forma tão tranquila e agradável. No aeroporto pegamos um taxi pré-pago na saída, depois de rápida pesquisa entre os disponíveis, Centurion por 220 rands (cerca de R$50,60). O aeroporto não é perto, então pareceu justo. 

John, o proprietário do An Africa Villa, nos orientou em um bom passeio para sábado pela manhã, caminhar pelo centro, já que este fica um pouco mais deserto e perigoso no sábado à tarde e domingo (como quase todos os centros históricos urbanos).

Caminhando, começamos pela Long Street, uma avenida comprida repleta de bares e lojas interessantes. Ainda tinha pouco movimento, mas acredito que deve ferver à noite. Muitas fachadas com lindos balcões vitorianos de ferro bem conservados.


Nos térreos de tais casarões de tudo um pouco: cafés, lojas de discos, de roupas estilosas, pequenos mercados, floriculturas... Alguns ainda marcam o ano de construção - como este de 1896.

Descendo a avenida, a arquitetura muda completamente. Vemos prédios altos, espelhados, alguns atuais, outros do Seculo XIX, mas já de arquitetura modernista. Adentramos no The Company Gardens, jardim público incrustado no centro financeiro da cidade, onde as pessoas descansam do trabalho, fazem piquenique, ou simplesmente se divertem com os esquilos adestrados* (explicação logo abaixo). 
Este é o prédio belíssimo do Parlamento, que infelizmente não estava aberto para visitação. 


Sim, vimos muitos pedintes e moradores de rua, todos negros. Não fomos molestados por nenhum deles, mas me fez lembrar do centro histórico de Salvador. Esperava várias aproximações, por viver na cidade mais africana do Brasil, infelizmente esta foi a primeira.


Voltando aos esquilos. Bem, são uma graça  certamente adestrados pelos anos de convivência ganhando comida fácil  Basta parar, fazer um som e chamar com os dedos que eles vem, ficam em pé e cheiram sua mão. Bem mais divertidos do que os arredios que vimos na Cidade do México.


No meio do gardens, ha uma estátua horrível  Vimos poucas estátuas por aqui, acho que não é o forte da cidade. Ou talvez o objetivo era fazer uma paródia com o ambicioso inglês, Cecil Rhodes, que veio pilhar diamantes e fazer fortuna em solo africano. Talvez esta figura robusta, de trajes folgados dando noção do exagero corporal e ar de bonachão, foi uma piada de algum bem-humorado anarquista. Ela fica no centro do Gardens.

Buscando outras imagens, verifiquei que esta não é a imagem original. Kleiz tirou a seguinte foto temos esta imagem:

Prefiro a paródia!
Bem próxima ao Gardens está a Catedral Saint George, onde um homem bem mais notável realizava as suas pregações descumprindo a lei do apartheid, Desmond Tutu, que por sua luta pelos direitos humanos ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 1984. 
A Igreja Anglicana é muito bonita por fora, toda de tijolinhos e estava preparada para os festejos da Páscoa.


A St. George's Cathedral é de 1901 e tem esta bela rosácea em vitrais, além de outros vitrais internos, como se vê acima.


Logo em frente está a St. Georges Mall, um largo calçadão, que lembra bastante as ramblas de Barcelona, com várias barracas de objetos diversos, flores, animais e artesanato. Ao longo da avenida, também existem agradáveis cafés, com o único inconveniente da cobiça dos vendedores e artistas performáticos que se apresentam.


Muito próximo da St. George's está o Greenmarket Square, uma feira de artesanato e produtos locais bem interessante. Instalada neste local desde 1806, tem até uma placa comemorativa e bons preços de artesanato. O centro é um bom lugar para este tipo de compras, bem mais barato do que no Walterfront.




Muito próximo está também o prédio da prefeitura com uma enorme praça à frente e um comércio bem popular, cuidado apenas com os furtos no local, já que há muito movimento.

Mas para mim o mais interessante de todo o centro histórico de Cape Town foi conhecer o District Six Museum.


Na rua quase em frente ao Castelo da Boa Esperança,  encontramos em um casarão reformado a história de um dos mais cruéis regimes segregadores que o mundo já viu.
Em 1966, um bairro inteiro, que concentrava quase 10% de toda a população da Cidade do Cabo, foi declarado "área branca". Assim, por decreto, o governo começou a retirar à força as pessoas de suas casas.


Famílias que tinham vivido a vida inteira naquele local foram desalojadas e suas casas inteiramente destruídas. 60 mil deslocadas para um local árido e distante 25km da cidade.
O local ficou tão marcado pelo sofrimento daquelas pessoas, que sequer houve a construção de um novo bairro branco.  


No Museu estão os objetos encontrados na fase de repovoamento do local. Criado em 1994, as famílias puderam retornar e reconhecer seus objetos, marcando o local exato de suas antigas residências em um mapa que se encontra no chão do Museu.


O District Six Museum é um local de lembrança e também de homenagem às pessoas que fizeram resistência e não aceitaram a absurda imposição estatal, ficando até o último minuto na tentativa de reverter aquela decisão desastrosa.


Esta é a visão do primeiro andar, com as placas dos nomes das ruas formando uma espécie de instalação. O museu é pequeno, tem um café bem agradável com um atendente idem que adora conversar. A entrada custa meros 45rands, cerca de R$10,00, mas poderia custar muito mais pelo sentimento de conhecer a história viva!


Voltamos pelo Castelo da Boa Esperança, que embora tenha seu valor por ser de 1666 e ser bem bonito de fora, não nos estimulamos a entrar.


Do Castelo se tem uma bonita visão da Table Montain, onde descobrimos não ser nada difícil se apaixonar pela Cidade do Cabo, "uma cidade pródiga de beleza, de beldades". Coetzee, Desonra.


O resumo do passeio:


Ver Centro da Cidade do Cabo num mapa maior